Professor Ronaldo Oliveira
Um texto não pode ser apresentado
como um objeto acabado em suas características linguísticas ou na sua
materialidade. Ele deve ser estudado de modo que se entenda a sua profundidade
e sua variedade de interações, que só são possíveis através de um entendimento
de suas possibilidades discursivas e tipológicas. Limitar o texto a um único
tipo, isto é, a uma única forma, é restringir os vários sentidos que a partir
dele são possíveis. O aluno deve interagir com as diversidades textuais,
procurando entender seu funcionamento e características mostradas em um determinado
meio de produção, para assim poder compreender de maneira eficiente seu
objetivo.
Podemos compreender um gênero a
partir de seu processo discursivo e de sua interação ligada a um campo da
atividade humana, ou seja, onde este texto é produzido e onde ele circula. A
partir destas colocações, a forma do texto, portanto, adquire importância
secundária, pois esta pode variar conforme as interações vão acontecendo,
tornando-se múltipla e diversificada em sua tipologia. É mais salutar observar a funcionalidade que este adquire, à medida que o mesmo se materializa.
Conclui-se a partir destas
colocações, com diz o ambiente AVA (Tema 2 tópico 3) “Os gêneros são processos
discursivos dinâmicos que se sedimentam historicamente pela sua circulação na
sociedade, dadas determinadas condições de produção”. Pela sua dinâmica os
gêneros também apresentam uma instabilidade, porque podem mudar conforme a sua
produção histórica. Porém, a despeito desta enorme dificuldade em se definir um
gênero textual, podemos observar a sua forma, que apesar de ser heterogênea, pode
ser estudada como um fenômeno estável, concordando com Orlandini (1987, pág.
229) “enquanto objeto teórico, o texto não é um objeto acabado; enquanto objeto
empírico, o texto pode ser um objeto acabado (um produto) com começo, meio e
fim”.
Sendo o gênero instável e
heterogêneo, pode-se estudar com os alunos a funcionalidade do mesmo e as
características que são sedimentadas por seu uso na sociedade. A partir destas
interações, percebe-se a relação que este texto estabelece com o leitor pela
forma que se apresenta. Sendo o desafio ensinar um gênero textual para o aluno,
deve-se, portanto, ensinar sua funcionalidade, como diz o ambiente AVA (Tema 2
tópico3) “ao invés de perguntar quais as marcas que definem um gênero do
discurso, devemos perguntar como elas funcionam em relação aos processos
discursivos que constituem os textos”.
Como por exemplo, a notícia. Este
gênero tem uma relação estável em sua materialidade, pois é uma divulgação de um acontecimento por
meios jornalístico. Normalmente, conhecemos uma notícia em sua forma
composicional, pois trata de um dado ou
evento social de certa relevância que merece uma divulgação. A função leitor é
estabelecida em uma leitura com esta
relação: a de um leitor que entra em contato com algo novo que merece ser
divulgado. A função autor é de alguém que quer divulgar este ou aquele fato, com
o desejo de informar, divulgar de maneira eficiente, para que se torne conhecido da maioria dos
leitores.
O gênero notícia, no entanto, é flexível, e pode assumir uma forma
composta de título, lead e corpo, onde as informações a que ela se propõe
transmitir estão materializadas. Porém, através do seu uso histórico, há transformações
e incorporações decorrentes de sua circulação nos meios em que é vinculado.
Como propõe Maingueneau (2006, pág. 208) “por sua própria natureza os gêneros
evoluem sem cessar par a par com a sociedade. Uma modificação significativa de
seu modo de existência material basta para transformá-lo profundamente”.
Estas transformações podem ser
observadas nos diversos meios de comunicação em que notícias são divulgadas. Quando
ela é vinculada no meio expresso, notam-se características de não
instantaneidade, se forem comparadas com aquelas vistas nos meios eletrônicos
de hoje. O leitor pode recortar as notícias arquivando-as, detalhes são
colocados possibilitando ao leitor abordar os assuntos sob outros ângulos. Ou
quando esta mesma notícia é vinculada em rádio, a sua forma adquire uma
instantaneidade momentânea, é falada distinguindo-a do meio expresso de forma
direta e em forma de manchetes. Pode-se observar ainda a notícia vinculada na
televisão, o leitor agora entra em contato com sons e imagens, dando a ela a
interpretação como se fosse de uma história, criando um suspense que o prende
até o final da notícia. Quanto o gênero notícia é vinculado na internet a
instantaneidade é notória, links são usados para abordar o tema de forma mais
ampla, a atualização se faz durante todo o dia podendo o leitor acompanhar seu
desenvolvimento passo a passo. Historicamente a notícia transmite informação
que são relevantes à sociedade. Como um processo vivo em que o gênero notícia
se transforma, ou seja, se configura nos seus processos de enunciação através
de rupturas e transformações de acordo com seu momento histórico.
O professor deve ensinar ao aluno
esta dinâmica, em que o desafio maior é compreender a funcionalidade de um
gênero textual em sua materialidade. Esta funcionalidade é expressa pela
informação dada, não importando sua forma, se o texto é mais abrangente, ou se
é apenas uma manchete, se é dado passo a passo ou se rapidamente. Podemos
observá-lo e compreendê-lo na heterogeneidade das maneiras como é veiculado,
porque o que “constitui um gênero é sua ligação com uma situação social de
interação, e não as suas propriedades formais” citando Rodrigues (2005, pág.
164).
Portanto, ensinar um gênero textual
é antes de tudo observar os processos gerais presentes em seu desenvolvimento,
a dominância deste ou daquele traço que é característico do discurso e analisar
o tipo textual enquanto produto histórico, concordando com Orlandini (1987 pág.
237). O professor tem a tarefa de trabalhar com o aluno algo que é
interdependente, texto e discurso se determinam mutuamente em um processo que
faz com que ele funcione. É este funcionamento que o professor precisa
trabalhar com o aluno, dessa forma tanto as marcas formais que são sedimentadas
pelo uso histórico quanto as propriedades discursivas de um texto serão
conhecidas pelo leitor.