quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Trabalhando um gênero

 Professor Ronaldo Oliveira 

            Um texto não pode ser apresentado como um objeto acabado em suas características linguísticas ou na sua materialidade. Ele deve ser estudado de modo que se entenda a sua profundidade e sua variedade de interações, que só são possíveis através de um entendimento de suas possibilidades discursivas e tipológicas. Limitar o texto a um único tipo, isto é, a uma única forma, é restringir os vários sentidos que a partir dele são possíveis. O aluno deve interagir com as diversidades textuais, procurando entender seu funcionamento e características mostradas em um determinado meio de produção, para assim poder compreender de maneira eficiente seu objetivo.
            Podemos compreender um gênero a partir de seu processo discursivo e de sua interação ligada a um campo da atividade humana, ou seja, onde este texto é produzido e onde ele circula. A partir destas colocações, a forma do texto, portanto, adquire importância secundária, pois esta pode variar conforme as interações vão acontecendo, tornando-se múltipla e diversificada em sua tipologia. É mais salutar observar  a funcionalidade que este adquire,  à medida que o mesmo se materializa.
            Conclui-se a partir destas colocações, com diz o ambiente AVA (Tema 2 tópico 3) “Os gêneros são processos discursivos dinâmicos que se sedimentam historicamente pela sua circulação na sociedade, dadas determinadas condições de produção”. Pela sua dinâmica os gêneros também apresentam uma instabilidade, porque podem mudar conforme a sua produção histórica. Porém, a despeito desta enorme dificuldade em se definir um gênero textual, podemos observar a sua forma, que apesar de ser heterogênea, pode ser estudada como um fenômeno estável, concordando com Orlandini (1987, pág. 229) “enquanto objeto teórico, o texto não é um objeto acabado; enquanto objeto empírico, o texto pode ser um objeto acabado (um produto) com começo, meio e fim”.
            Sendo o gênero instável e heterogêneo, pode-se estudar com os alunos a funcionalidade do mesmo e as características que são sedimentadas por seu uso na sociedade. A partir destas interações, percebe-se a relação que este texto estabelece com o leitor pela forma que se apresenta. Sendo o desafio ensinar um gênero textual para o aluno, deve-se, portanto, ensinar sua funcionalidade, como diz o ambiente AVA (Tema 2 tópico3) “ao invés de perguntar quais as marcas que definem um gênero do discurso, devemos perguntar como elas funcionam em relação aos processos discursivos que constituem os textos”.
            Como por exemplo, a notícia. Este gênero tem uma relação estável em sua materialidade,  pois é uma divulgação de um acontecimento por meios jornalístico. Normalmente, conhecemos uma notícia em sua forma composicional,  pois trata de um dado ou evento social de certa relevância que merece uma divulgação. A função leitor é estabelecida em uma leitura  com esta relação: a de um leitor que entra em contato com algo novo que merece ser divulgado. A função autor é de alguém que quer divulgar este ou aquele fato, com o desejo de informar, divulgar de maneira eficiente,  para que se torne conhecido da maioria dos leitores.
            O gênero notícia,  no entanto, é flexível, e pode assumir uma forma composta de título, lead e corpo, onde as informações a que ela se propõe transmitir estão materializadas. Porém, através do seu uso histórico, há transformações e incorporações decorrentes de sua circulação nos meios em que é vinculado. Como propõe Maingueneau (2006, pág. 208) “por sua própria natureza os gêneros evoluem sem cessar par a par com a sociedade. Uma modificação significativa de seu modo de existência material basta para transformá-lo profundamente”.
            Estas transformações podem ser observadas nos diversos meios de comunicação em que notícias são divulgadas. Quando ela é vinculada no meio expresso, notam-se características de não instantaneidade, se forem comparadas com aquelas vistas nos meios eletrônicos de hoje. O leitor pode recortar as notícias arquivando-as, detalhes são colocados possibilitando ao leitor abordar os assuntos sob outros ângulos. Ou quando esta mesma notícia é vinculada em rádio, a sua forma adquire uma instantaneidade momentânea, é falada distinguindo-a do meio expresso de forma direta e em forma de manchetes. Pode-se observar ainda a notícia vinculada na televisão, o leitor agora entra em contato com sons e imagens, dando a ela a interpretação como se fosse de uma história, criando um suspense que o prende até o final da notícia. Quanto o gênero notícia é vinculado na internet a instantaneidade é notória, links são usados para abordar o tema de forma mais ampla, a atualização se faz durante todo o dia podendo o leitor acompanhar seu desenvolvimento passo a passo. Historicamente a notícia transmite informação que são relevantes à sociedade. Como um processo vivo em que o gênero notícia se transforma, ou seja, se configura nos seus processos de enunciação através de rupturas e transformações de acordo com seu momento histórico.
       O professor deve ensinar ao aluno esta dinâmica, em que o desafio maior é compreender a funcionalidade de um gênero textual em sua materialidade. Esta funcionalidade é expressa pela informação dada, não importando sua forma, se o texto é mais abrangente, ou se é apenas uma manchete, se é dado passo a passo ou se rapidamente. Podemos observá-lo e compreendê-lo na heterogeneidade das maneiras como é veiculado, porque o que “constitui um gênero é sua ligação com uma situação social de interação, e não as suas propriedades formais” citando Rodrigues (2005, pág. 164).

            Portanto, ensinar um gênero textual é antes de tudo observar os processos gerais presentes em seu desenvolvimento, a dominância deste ou daquele traço que é característico do discurso e analisar o tipo textual enquanto produto histórico, concordando com Orlandini (1987 pág. 237). O professor tem a tarefa de trabalhar com o aluno algo que é interdependente, texto e discurso se determinam mutuamente em um processo que faz com que ele funcione. É este funcionamento que o professor precisa trabalhar com o aluno, dessa forma tanto as marcas formais que são sedimentadas pelo uso histórico quanto as propriedades discursivas de um texto serão conhecidas pelo leitor. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

Caminhos da Leitura

Professor Ronaldo Oliveira

            Fazer leitores capazes de autoria em um contexto escolar é um desafio para professores em escolas que apresentam um ambiente onde a leitura e a originalidade são substituídas paulatinamente por cópias e superficialidade.
            Apresentar um texto para alunos pode parecer uma atividade simples, porém se for considerada a forma de construção de suas significações chega-se à conclusão que é uma atividade complexa e abrangente. É complexa porque o aluno precisa entender os significados históricos que uma palavra tem e é abrangente porque alcança não apenas esta historicidade, mas também o contexto em que foi escrito.
            É um diálogo entre o autor e o leitor, que demonstra a visão de mundo, as ideias já existentes, antecipações de imagens, relações estabelecidas que constroem conclusões e delimitam entendimentos.
            Na escola os textos produzidos ou lidos, muitas vezes, não contemplam estes conceitos. O aluno se limita a uma leitura que não desenvolve suas potencialidades, ficando apenas como um decodificador de letras ou um mero produtor de cópias. Atividades como a elaboração de uma crônica ou um relato, podem desenvolver a capacidade no domínio da lingüística, porém deixa o aluno fora de conceitos como o discurso e a interatividade que o trabalho poderia produzir.
            Por outro lado, o professor engessado a um currículo que não contempla a diversidade textual, limita-se a trabalhar com um gênero de texto apenas. O aluno ao invés de produzir textos diversos e entrar em contato com tipos diferentes de leitura, fica limitado pelo currículo e a familiarizar-se com apenas uma tipologia, na série ou ano em que encontra sua vida escolar  Isto demonstra uma visão limitada da potencialidade que o aluno pode desenvolver.
            O livro didático que deveria apresentar de maneira coesa as diversas tipologias textuais, falha em não apresentar uma proposta progressiva e que trabalhe de maneira interativa com os alunos. Apresentando, como por exemplo, um tema, desenvolvendo-o e só após um trabalho consistente partir para outro tema com outras propostas.
            Apesar dos desafios existentes e das limitações históricas que os alunos enfrentam, a escola deve incentivar a formação de leitores. Isto se dá através de atividades que estimulem os alunos a lerem de maneira crítica e criativa. Dar um objetivo à leitura é uma das maneiras eficientes pelo qual podemos incentivar os leitores. Ler por ler não produz muitos resultados. Se faz necessário dar ao leitor na escola um foco pelo qual ele possa trabalhar, seja para um debate ou outra proposta qualquer.      
            Outra maneira pela qual o aluno pode ter seu potencial de leitor desenvolvido é dar-lhe condições de expressar-se através dos conhecimentos prévios de leitura que possui. Comparar um texto com outro, desenvolver comentários que vão além das leituras tradicionais que o sistema de ensino possui é capacitar o aluno a se tornar crítico e construtor de outros significados. O texto possui isto, o aluno é seu maior interpretador,  por isso um professor bem como a escola deve dar condições para que se desenvolva estas habilidades.
            Quando o aluno consegue se impor através destas atitudes e diante de um texto ele é capaz de  romper com aquilo que já foi dito, ou está institucionalizado e é tido como “natural” como disse Puccinelli (1994, pág 57), isto é interpretar, é ir além.

            Interpretando o aluno consegue ver nossa sociedade e seus chamamentos de forma mais protagonista. É lendo, é escrevendo que vai construindo significações, compreendendo a história com que um texto chegou até ele e as diversas maneiras com que ele pode se relacionar com o mesmo.  E  o mais importante disso tudo de maneira crítica, que não se limita aquilo que está escrito ou o que do que  foi dito, mas de maneira criativa com suas próprias conclusões.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Resenha: Leitores Eficientes

Professor Ronaldo Oliveira

            A capacidade de ler envolve aspectos  muito mais profundos do que apenas decodificar letras e pronunciar os sons, como disse Rojo (2004, pag. 2) “ler era visto – de maneira simplista – apenas como um processo perceptual e associativo de decodificação de grafemas (escrita) em fonemas (fala), para se acessar o significado da linguagem do texto.” Essa mudança, da leitura simplista para uma mais complexa, implica para o leitor o desenvolvimento de práticas que antes não eram vistas como próprias da leitura, e  muitas vezes os leitores não são capazes de desenvolver, seja por falta de competência ou por habilidades ainda não desenvolvidas.
            A escola tem importante papel na formação de um leitor, pois a abordagem que ela dá à leitura pode desenvolver leitores cidadãos, ou seja, capazes de se apropriar das vantagens que uma leitura eficaz pode proporcionar. Caso contrário, o alfabetizado será apenas o leitor simplista reproduzindo as letras que lê. Para tanto, a escola deve ir além, mostrando que a leitura é um processo que desafia os estudantes a ver nos diversos meios de comunicação canais que, carregados de informação, podem ser compreendidos e analisados de maneira eficiente. Para tanto, práticas como leitura em voz alta, em jogral, questionários a serem respondidos, cópias intermináveis, não são suficientes para desenvolver as habilidades em questão.
            A compreensão de um texto envolve aspectos que devem ser desenvolvidos de maneira a fazer com que o leitor ative o conhecimento de mundo que ele tem, para poder de modo eficiente fazer comparações com o texto lido, caso contrário, como diz Rojo (2004, pág. 5), o leitor terá “...uma lacuna na compreensão, que será preenchida por outras estratégias, em geral de caráter inferencial”, podendo desta forma prejudicar a compreensão correta do texto. Além dessa habilidade citada,  outras de importância relevante devem ser consideradas como: antecipação de conteúdos, checagem de hipóteses, localização e comparação de informações e generalizações, produção de inferências locais e globais. Tudo isto envolvido no plano eficiente de uma leitura dinâmica, leva a desenvolver habilidades para o que chamamos de leitura cidadã.
            Situar o texto em seu contexto é outra habilidade requerida para desenvolver uma leitura eficiente. Podemos entender melhor o que está escrito compreendendo quem é o autor, que posição social ele ocupa, onde foi veiculado o que está escrito, etc. Para concordar com um texto ou não, apreciá-lo ou detestá-lo, ter objetivos para se estudar determinada produção, compará-lo com outros já existentes, enfim, a leitura cidadã exige uma compreensão que vai além do que está escrito, para tanto, se faz necessário que o leitor faça comparações muitas vezes complexas e que exigem algo mais do que uma simples leitura. Tudo isto tem o objetivo de descolar a leitura para além do texto, levar o aluno a compreender a sua liberdade na leitura, tanto para discordar, quanto para concordar, comparar outras produções, revisar, ponderar, abandonar o que se fazia antigamente como meras repetições e construir de maneira autônoma a sua compreensão daquilo que está escrito.
            É esta autonomia, em poder situar aquilo que é lido, criticando, apreciando, ou até mesmo detestando, que produz um leitor eficiente, autônomo, cidadão.  Capaz, inclusive, de questionar determinadas imposições que se fizeram através dos anos como é o caso da Literatura. Antes, a leitura era confinada aos cânones daquilo que era considerado “bom para se ler”, e por anos esta imposição foi aceita e replicada nos bancos das escolas por gerações de professores que não questionavam aquilo que era ensinado. Poder estudar uma obra de literatura como um romance, poema ou música deveria antes passar pela aprovação dos críticos que diziam o que era belo e poderia ser considerado pelos demais leitores como algo literário.
            Com as mudanças ocorridas, foi lançado um novo olhar sobre a Literatura, características que antes eram tidas como essenciais para se considerar algo literário, hoje pode ser observado em uma simples carta de leitor em uma revista semanal. Itens como caracterização de personagens, enredo, tempo e espaço que antes eram exigidos nos cânones literários podem ser “vulgarmente” apreciados nos diversos textos vinculados nos meios de comunicação. Sem falar em poemas, seja os mais simples produzidos em um banco de escola, ou aqueles feitos na mestria da escrita dos poetas consagrados, até apresentações musicais que podem ser apreciadas ou não, dependendo, como diz as convenções, da sua “qualidade estética”.
            Sendo assim, a definição do que é ou não é Literatura encontrou um conflito que, por definição, não é nada fácil de resolver. Porém, a despeito das dificuldades em definir através da crítica, o que é ou não uma produção de um “texto literário”, “literariedade” ou “qualidade estética”, podemos ensinar aos alunos de maneira que eles possam apreciar produções  sem marginalizá-las, ou seja, entendendo as características de um texto, de um poema, de uma peça teatral, o aluno pode apropriar-se das qualidades que uma produção tem, apreciando-a e atribuindo-lhe valores que lhe são inerentes. Como diz Márcia Abreu (2006, pág. 30) “Nós temos que discutir o que é literatura, pois ela é um fenômeno cultural e histórico e, portanto, passível de receber diferentes definições em diferentes épocas e por diferentes grupos sociais.”
            Portanto, percebe-se que ler é compreender, é fazer comparações, é tomar parte de informações e a partir delas construir o próprio conhecimento em atos individuais e em grupo, tomando parte de informações  que ultrapassam o texto lido, pois a leitura cidadã envolve ir além do que está escrito, isto é, formar leitores de fato.
             

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O Ensino Contemporâneo da Língua


Professor Ronaldo Oliveira

            O ensino da Língua Portuguesa contemporânea é muito mais desafiador do que da maneira como a ensinávamos há algum tempo atrás. Se o antigo modelo levava professor e aluno a um conteúdo baseado na gramática e produção de textos já pré-estabelecidos, com a sisudez de um padrão rígido, agora temos diversidade de textos e manifestações que desafiam tanto ao professor quanto ao aluno, em acompanhar diversas mudanças e entender estas manifestações da nossa língua materna.
            As mudanças muitas vezes não são bem vistas, por isso há, por parte de muitos profissionais, resistências em relação a novos métodos de ensino. Podemos tomar como exemplo, o uso de diversos gêneros textuais em sala de aula. Estes gêneros, muitas vezes, causam estranhamento por parte daqueles que, acostumados com os textos canônicos, se deparam com um novo método de entender e fazer a aproximação do aluno com o conhecimento da língua e suas variedades. Esta diversidade é produto das transformações e da diversificação dos meios de comunicação analógicos e digitais que em contrapartida com os meios impressos, segundo (Chartier, 1997: Darnton; Burke, 2010), produzem mudanças significativas nas maneiras de ler, de produzir e de fazer circular textos nas sociedades.
            Tais mudanças não afetam somente os profissionais da área, mas também os alunos. Não basta apenas dominar os conteúdos do ensino da Língua Portuguesa, o estudante agora precisa desenvolver habilidades. Habilidades estas que o levarão a transpor uma barreira há muito tempo construída em currículos propedêuticos. A contemporaneidade exige do aluno um letramento múltiplo, crítico e protagonista através de textos multissimióticos. Tarefa esta nada fácil, se o aluno não conquistar confiança em saber aprender. Isto implica, inclusive, no abandono do imediatismo que os textos multimídia oferecem e no desenvolvimento de uma reflexão crítica da leitura.
            A escola agora se torna um ambiente onde a leitura e produção de textos contêm uma variedade e complexidade que, por vezes, se torna quase impossível a limitação do conteúdo a ser aprendido. Não se pode limitar o ensino a textos conhecidos como reportagens, entrevistas ou publicidades, mas ir além, para onde a diversidade e a criatividade norteiam as produções textuais. O objetivo é atingir a enorme variedade dos textos que circulam no cotidiano do aluno, que em muitos casos não são valorizados e até ignorados.
            Estas habilidades tão requeridas por parte do sistema de ensino, são o reflexo da chamada globalização, que agora exige uma adaptação aos novos rumos que a sociedade toma. A unificação de diversas culturas, pessoas e países.
            Toda esta trama de novos conceitos tem o objetivo de preparar indivíduos globais para um mercado único, no qual se espera o domínio de aptidões que torna o indivíduo habilitado neste novo mundo globalizado. Como decorrência disto, também encontramos os PCNs e as novas propostas curriculares nos estados.
            Superar tamanhas exigências só é possível através de um letramento eficiente. Como disse Rojo (2002) “Falar na formação do leitor cidadão é justamente não olhar só uma das faces da moeda; é permitir a nossos alunos a confiança na possibilidade e as capacidades necessárias ao exercício pleno da compreensão”. Este exercício pleno, e esta compreensão formam o aluno de maneira cidadã, integral e plena. Também dá a capacidade de olhar de maneira crítica, sabendo interpretar das diversas formas que as leituras se apresentam.

          Portanto, a contemporaneidade do ensino da Língua Portuguesa faz exigências, tanto ao professor, quanto ao aluno, a adaptações que exigem mudanças significativas na maneira de ensinar, como na maneira de aprender. Estas mudanças são necessárias para a adaptação e sobrevivência do ensino da Língua neste mundo tão complexo e que vai a cada dia se enchendo de novos significados. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

A Língua Portuguesa em sala de aula

Professor Ronaldo Oliveira

            A importância do ensino da Língua Portuguesa e seus conteúdos como gramática, literatura e produção de texto tem se revelado ao longo da  história como algo que vai se modificando conforme as necessidades dos alunos, ora para ingressarem em um nível mais elevado do ensino,  ora para compreenderem os discursos da modernidade que estão inseridos nos diversos textos que circulam no cotidiano. O uso da língua materna é importante para compreendermos o mundo que nos cerca, por isso é necessário termos um domínio de seus conteúdos e apropriarmo-nos deles para que possamos compreender e fazer melhor aquilo que a língua nos oferece.
            Este domínio não se dá apenas através do uso correto da gramática, mas através do significado que a gramática através da língua nos oferece, nos primórdios quando a escola enfatizava a gramática como um meio pelo qual o aluno conseguiria desenvolver os potenciais da língua materna esqueceu-se que esta compreensão ia além do domínio das regras apenas. O  aluno ficava acostumado a análises sintáticas, aplicação de regras quanto ao verbo ou ao sujeito, prática esta que formalizava apenas o aspecto padrão da língua sem considerar as diversas faces que a língua nos oferece através das suas manifestações, sejam regionais e do uso comum no dia a dia. Em sala de aula muitas vezes consideramos este uso como prioridade podemos incorrer no erro de focar o ensino apenas no aspecto formal da língua.
            Se por um lado o uso da Gramática era deficitário o uso da Literatura desde o começo do ensino passou informações que vinham dos nossos colonizadores, seus padrões, estruturas, autores e obras. Para criarmos uma identidade nacional e dentro de nossos padrões levou-se muito tempo até que se percebesse a importância de nossos autores e das nossas produções. A importância dessa autonomia ainda ficava dependente de um padrão que engessava a leitura de textos, pois só se liam obras que eram consideradas dentro de um padrão que uma minoria definiu como literatura e se desprezava outras produções que poderiam ser consideradas relevantes para os alunos daquela época.
            Na produção escrita se priorizava a redação sem contudo exigir do aluno alguma forma mais aprimorada, apenas se exigia uma forma mais abrangente com um fundo moral que concordasse com os padrões da sociedade, estes já pré-definidos pelo professor.
            Toda as informações obtidas no estudo da língua levavam o aluno a almejar o ingresso em alguma instituição de ensino superior coisa esta bastante cobiçada pela classe que frequentava as escolas de ensino em épocas anteriores à nossa, tal prática não é muito diferente dos dias de hoje.
            O condicionamento do ensino da língua materna a estas práticas de conteúdo propedêutico em nossos dias estão obsoletas, devido outras demandas que nossa sociedade apresenta. Aprender para apenas dominar conteúdos e ser aprovado em alguma prova não desenvolve no aluno habilidades que são necessárias para que ele sobreviva em uma sociedade da informação. Textos de diversos tipos, discursos os mais variados, informações que pululam em todos os meios de comunicação a uma velocidade incrível precisam ser entendidos, selecionados e trabalhados de uma maneira eficiente por nossos alunos para que possam processá-las de maneira eficiente, não apenas decorando e dominando regras e condicionando-se a contemplar aquilo que as pessoas ditam como padrões aceitáveis de literatura. Além de tudo isso, temos o enorme desafio que o professor tem de acompanhar as mídias que sufocam nossos alunos com informações as mais variadas e de conteúdo de entretenimento que muitas vezes absorvem tanto a atenção do aluno que fica difícil a concentração do mesmo para a produção escrita ou a uma leitura mais complexa e profunda.
            Portanto, diante de tais desafios fica evidente que a significação das palavras: Gramática, Literatura e Produção de Texto criam um novo desafio para aqueles que ensinam a Língua Portuguesa em nossos dias, o professor deve se conscientizar que deve contextualizar para que desenvolva em nossos alunos não apenas habilidades acadêmicas mas também sociais e estes sejam gerentes da sua formação e aprimoramento.