Professor Ronaldo Oliveira
A
capacidade de ler envolve aspectos muito mais profundos do que apenas
decodificar letras e pronunciar os sons, como disse Rojo (2004, pag. 2) “ler
era visto – de maneira simplista – apenas como um processo perceptual e
associativo de decodificação de grafemas (escrita) em fonemas (fala), para se
acessar o significado da linguagem do texto.” Essa mudança, da leitura
simplista para uma mais complexa, implica para o leitor o desenvolvimento de práticas
que antes não eram vistas como próprias da leitura, e muitas vezes os leitores não são capazes de
desenvolver, seja por falta de competência ou por habilidades ainda não
desenvolvidas.
A escola tem importante papel na
formação de um leitor, pois a abordagem que ela dá à leitura pode desenvolver
leitores cidadãos, ou seja, capazes de se apropriar das vantagens que uma
leitura eficaz pode proporcionar. Caso contrário, o alfabetizado será apenas o
leitor simplista reproduzindo as letras que lê. Para tanto, a escola deve ir
além, mostrando que a leitura é um processo que desafia os estudantes a ver nos
diversos meios de comunicação canais que, carregados de informação, podem ser
compreendidos e analisados de maneira eficiente. Para tanto, práticas como
leitura em voz alta, em jogral, questionários a serem respondidos, cópias
intermináveis, não são suficientes para desenvolver as habilidades em questão.
A compreensão de um texto envolve
aspectos que devem ser desenvolvidos de maneira a fazer com que o leitor ative
o conhecimento de mundo que ele tem, para poder de modo eficiente fazer
comparações com o texto lido, caso contrário, como diz Rojo (2004, pág. 5), o
leitor terá “...uma lacuna na compreensão, que será preenchida por outras
estratégias, em geral de caráter inferencial”, podendo desta forma prejudicar a
compreensão correta do texto. Além dessa habilidade citada, outras de importância relevante devem ser
consideradas como: antecipação de conteúdos, checagem de hipóteses, localização
e comparação de informações e generalizações, produção de inferências locais e
globais. Tudo isto envolvido no plano eficiente de uma leitura dinâmica, leva a
desenvolver habilidades para o que chamamos de leitura cidadã.
Situar o texto em seu contexto é
outra habilidade requerida para desenvolver uma leitura eficiente. Podemos
entender melhor o que está escrito compreendendo quem é o autor, que posição
social ele ocupa, onde foi veiculado o que está escrito, etc. Para concordar
com um texto ou não, apreciá-lo ou detestá-lo, ter objetivos para se estudar
determinada produção, compará-lo com outros já existentes, enfim, a leitura
cidadã exige uma compreensão que vai além do que está escrito, para tanto, se
faz necessário que o leitor faça comparações muitas vezes complexas e que
exigem algo mais do que uma simples leitura. Tudo isto tem o objetivo de
descolar a leitura para além do texto, levar o aluno a compreender a sua liberdade
na leitura, tanto para discordar, quanto para concordar, comparar outras
produções, revisar, ponderar, abandonar o que se fazia antigamente como meras
repetições e construir de maneira autônoma a sua compreensão daquilo que está
escrito.
É esta autonomia, em poder situar
aquilo que é lido, criticando, apreciando, ou até mesmo detestando, que produz
um leitor eficiente, autônomo, cidadão.
Capaz, inclusive, de questionar determinadas imposições que se fizeram
através dos anos como é o caso da Literatura. Antes, a leitura era confinada
aos cânones daquilo que era considerado “bom para se ler”, e por anos esta
imposição foi aceita e replicada nos bancos das escolas por gerações de
professores que não questionavam aquilo que era ensinado. Poder estudar uma
obra de literatura como um romance, poema ou música deveria antes passar pela
aprovação dos críticos que diziam o que era belo e poderia ser considerado
pelos demais leitores como algo literário.
Com as mudanças ocorridas, foi
lançado um novo olhar sobre a Literatura, características que antes eram tidas
como essenciais para se considerar algo literário, hoje pode ser observado em
uma simples carta de leitor em uma revista semanal. Itens como caracterização
de personagens, enredo, tempo e espaço que antes eram exigidos nos cânones
literários podem ser “vulgarmente” apreciados nos diversos textos vinculados
nos meios de comunicação. Sem falar em poemas, seja os mais simples produzidos
em um banco de escola, ou aqueles feitos na mestria da escrita dos poetas
consagrados, até apresentações musicais que podem ser apreciadas ou não,
dependendo, como diz as convenções, da sua “qualidade estética”.
Sendo assim, a definição do que é ou
não é Literatura encontrou um conflito que, por definição, não é nada fácil de
resolver. Porém, a despeito das dificuldades em definir através da crítica, o
que é ou não uma produção de um “texto literário”, “literariedade” ou
“qualidade estética”, podemos ensinar aos alunos de maneira que eles possam
apreciar produções sem marginalizá-las,
ou seja, entendendo as características de um texto, de um poema, de uma peça
teatral, o aluno pode apropriar-se das qualidades que uma produção tem, apreciando-a
e atribuindo-lhe valores que lhe são inerentes. Como diz Márcia Abreu (2006, pág.
30) “Nós temos que discutir o que é literatura, pois ela é um fenômeno cultural
e histórico e, portanto, passível de receber diferentes definições em
diferentes épocas e por diferentes grupos sociais.”
Portanto, percebe-se que ler é
compreender, é fazer comparações, é tomar parte de informações e a partir delas
construir o próprio conhecimento em atos individuais e em grupo, tomando parte
de informações que ultrapassam o texto
lido, pois a leitura cidadã envolve ir além do que está escrito, isto é, formar
leitores de fato.
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