segunda-feira, 8 de julho de 2013

Resenha: Leitores Eficientes

Professor Ronaldo Oliveira

            A capacidade de ler envolve aspectos  muito mais profundos do que apenas decodificar letras e pronunciar os sons, como disse Rojo (2004, pag. 2) “ler era visto – de maneira simplista – apenas como um processo perceptual e associativo de decodificação de grafemas (escrita) em fonemas (fala), para se acessar o significado da linguagem do texto.” Essa mudança, da leitura simplista para uma mais complexa, implica para o leitor o desenvolvimento de práticas que antes não eram vistas como próprias da leitura, e  muitas vezes os leitores não são capazes de desenvolver, seja por falta de competência ou por habilidades ainda não desenvolvidas.
            A escola tem importante papel na formação de um leitor, pois a abordagem que ela dá à leitura pode desenvolver leitores cidadãos, ou seja, capazes de se apropriar das vantagens que uma leitura eficaz pode proporcionar. Caso contrário, o alfabetizado será apenas o leitor simplista reproduzindo as letras que lê. Para tanto, a escola deve ir além, mostrando que a leitura é um processo que desafia os estudantes a ver nos diversos meios de comunicação canais que, carregados de informação, podem ser compreendidos e analisados de maneira eficiente. Para tanto, práticas como leitura em voz alta, em jogral, questionários a serem respondidos, cópias intermináveis, não são suficientes para desenvolver as habilidades em questão.
            A compreensão de um texto envolve aspectos que devem ser desenvolvidos de maneira a fazer com que o leitor ative o conhecimento de mundo que ele tem, para poder de modo eficiente fazer comparações com o texto lido, caso contrário, como diz Rojo (2004, pág. 5), o leitor terá “...uma lacuna na compreensão, que será preenchida por outras estratégias, em geral de caráter inferencial”, podendo desta forma prejudicar a compreensão correta do texto. Além dessa habilidade citada,  outras de importância relevante devem ser consideradas como: antecipação de conteúdos, checagem de hipóteses, localização e comparação de informações e generalizações, produção de inferências locais e globais. Tudo isto envolvido no plano eficiente de uma leitura dinâmica, leva a desenvolver habilidades para o que chamamos de leitura cidadã.
            Situar o texto em seu contexto é outra habilidade requerida para desenvolver uma leitura eficiente. Podemos entender melhor o que está escrito compreendendo quem é o autor, que posição social ele ocupa, onde foi veiculado o que está escrito, etc. Para concordar com um texto ou não, apreciá-lo ou detestá-lo, ter objetivos para se estudar determinada produção, compará-lo com outros já existentes, enfim, a leitura cidadã exige uma compreensão que vai além do que está escrito, para tanto, se faz necessário que o leitor faça comparações muitas vezes complexas e que exigem algo mais do que uma simples leitura. Tudo isto tem o objetivo de descolar a leitura para além do texto, levar o aluno a compreender a sua liberdade na leitura, tanto para discordar, quanto para concordar, comparar outras produções, revisar, ponderar, abandonar o que se fazia antigamente como meras repetições e construir de maneira autônoma a sua compreensão daquilo que está escrito.
            É esta autonomia, em poder situar aquilo que é lido, criticando, apreciando, ou até mesmo detestando, que produz um leitor eficiente, autônomo, cidadão.  Capaz, inclusive, de questionar determinadas imposições que se fizeram através dos anos como é o caso da Literatura. Antes, a leitura era confinada aos cânones daquilo que era considerado “bom para se ler”, e por anos esta imposição foi aceita e replicada nos bancos das escolas por gerações de professores que não questionavam aquilo que era ensinado. Poder estudar uma obra de literatura como um romance, poema ou música deveria antes passar pela aprovação dos críticos que diziam o que era belo e poderia ser considerado pelos demais leitores como algo literário.
            Com as mudanças ocorridas, foi lançado um novo olhar sobre a Literatura, características que antes eram tidas como essenciais para se considerar algo literário, hoje pode ser observado em uma simples carta de leitor em uma revista semanal. Itens como caracterização de personagens, enredo, tempo e espaço que antes eram exigidos nos cânones literários podem ser “vulgarmente” apreciados nos diversos textos vinculados nos meios de comunicação. Sem falar em poemas, seja os mais simples produzidos em um banco de escola, ou aqueles feitos na mestria da escrita dos poetas consagrados, até apresentações musicais que podem ser apreciadas ou não, dependendo, como diz as convenções, da sua “qualidade estética”.
            Sendo assim, a definição do que é ou não é Literatura encontrou um conflito que, por definição, não é nada fácil de resolver. Porém, a despeito das dificuldades em definir através da crítica, o que é ou não uma produção de um “texto literário”, “literariedade” ou “qualidade estética”, podemos ensinar aos alunos de maneira que eles possam apreciar produções  sem marginalizá-las, ou seja, entendendo as características de um texto, de um poema, de uma peça teatral, o aluno pode apropriar-se das qualidades que uma produção tem, apreciando-a e atribuindo-lhe valores que lhe são inerentes. Como diz Márcia Abreu (2006, pág. 30) “Nós temos que discutir o que é literatura, pois ela é um fenômeno cultural e histórico e, portanto, passível de receber diferentes definições em diferentes épocas e por diferentes grupos sociais.”
            Portanto, percebe-se que ler é compreender, é fazer comparações, é tomar parte de informações e a partir delas construir o próprio conhecimento em atos individuais e em grupo, tomando parte de informações  que ultrapassam o texto lido, pois a leitura cidadã envolve ir além do que está escrito, isto é, formar leitores de fato.
             

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